Florianópolis está sendo usada nesta semana como uma das cidades brasileiras escolhidas para testar uma pesquisa que poderá mudar a forma como o país conhece a realidade das pessoas em situação de rua.
A Capital catarinense sedia uma prova piloto do primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, previsto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2028.
O trabalho ainda não é o censo oficial. Trata-se de uma etapa de testes para descobrir, na prática, o que funciona, quais dificuldades aparecem durante as abordagens e como os pesquisadores poderão chegar a um retrato mais preciso dessa população.
Florianópolis foi escolhida para representar a região Sul. A atividade também acontece em Manaus, Salvador, Belo Horizonte e Goiânia, cada uma representando uma região brasileira.
A escolha não ocorreu por acaso. Entre os critérios utilizados estão características de mobilidade e o fato de essas cidades receberem pessoas vindas de diferentes lugares.
No caso de Florianópolis, entram ainda fatores bastante conhecidos por quem vive na Capital: a condição insular, a circulação de pessoas e a movimentação provocada pelo turismo ao longo do ano.

Pesquisa acontece principalmente à noite
Quem circula por Florianópolis durante a noite poderá perceber equipes trabalhando em diferentes pontos da cidade.
O período noturno foi priorizado porque é quando a população em situação de rua tende a ficar mais visível em determinados espaços urbanos.
A equipe do IBGE conta com apoio de profissionais da Prefeitura de Florianópolis e de instituições que já atuam no atendimento e suporte a pessoas em situação de rua.
O objetivo do teste é verificar se os pesquisadores conseguem localizar, identificar e entrevistar essas pessoas, além de testar todo o caminho da coleta de informações.
Não se trata apenas de saber quantas pessoas estão nas ruas.
A metodologia prevê perguntas capazes de ajudar a entender diferentes aspectos da trajetória de vida, como origem, deslocamentos, renda, contato com familiares e questões relacionadas à saúde.
O que o IBGE está testando em Florianópolis?
A prova piloto funciona como uma espécie de ensaio geral antes da pesquisa nacional.
Os pesquisadores avaliam desde a maneira de localizar as pessoas até o funcionamento dos questionários e dos sistemas eletrônicos utilizados durante o trabalho de campo.
Entre os pontos observados estão:
- o mapeamento dos locais onde há permanência ou circulação de pessoas em situação de rua;
- a forma de abordagem utilizada pelos pesquisadores;
- a realização das entrevistas;
- a capacidade de identificar pessoas mesmo quando a entrevista completa não é possível;
- o funcionamento dos questionários eletrônicos;
- os sistemas utilizados pelas equipes durante a coleta;
- as dificuldades encontradas no deslocamento e no contato com o público pesquisado.
A etapa é considerada importante também porque uma pesquisa nacional desse tamanho envolve custos elevados. Por isso, testar os procedimentos antes da realização oficial permite avaliar se a metodologia consegue produzir as informações necessárias.
Florianópolis representa a região Sul
Além da Capital catarinense, outras quatro cidades foram selecionadas para a prova piloto.
Manaus representa a região Norte; Salvador, o Nordeste; Belo Horizonte, o Sudeste; e Goiânia, o Centro-Oeste.
O grupo foi formado a partir de critérios técnicos relacionados, entre outros fatores, à circulação de pessoas e à presença de moradores de rua com diferentes origens.
Santa Catarina aparece nesse cenário com uma característica particular: o Estado registrou a maior migração populacional no último Censo Demográfico brasileiro, realizado entre 2022 e 2023.
Essa dinâmica ajuda a explicar a importância de observar como os deslocamentos populacionais se relacionam com a realidade encontrada nas cidades.
Primeiro Censo nacional está previsto para 2028
O levantamento que está sendo testado agora em Florianópolis deverá servir de preparação para uma pesquisa muito maior.
O Censo Nacional da População em Situação de Rua está previsto para 2028 e deverá reunir informações em todo o país.
A expectativa é que os dados ajudem a construir um retrato mais detalhado dessa população e forneçam informações para o planejamento de ações públicas de médio e longo prazo.
A prova piloto, portanto, não representa a contagem definitiva. Ela serve para verificar se o método escolhido pelo IBGE consegue funcionar nas ruas, diante das situações reais encontradas pelas equipes.
Santa Catarina já tem cadastro estadual
Enquanto o IBGE prepara o levantamento nacional, Santa Catarina também avançou na criação de uma ferramenta própria para reunir informações sobre pessoas em situação de rua.
A Lei Estadual nº 19.380/2025 instituiu o Cadastro Estadual de Pessoas em Situação de Rua.
Entre os objetivos estão fornecer informações para a formulação de políticas públicas e auxiliar no acompanhamento dessa população.
O cadastro também prevê informações relacionadas ao perfil social, histórico, condições de saúde e localização das pessoas, além de apoiar ações de atendimento, encaminhamento, acolhimento e reinserção social.
A operação do sistema fica sob responsabilidade da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP), com previsão de integração, sempre que possível, ao Cadastro Único do governo federal, o CadÚnico.
As informações devem seguir as regras estabelecidas pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Número de pessoas em situação de rua cresceu em Santa Catarina
O tema também vem sendo acompanhado pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina.
Levantamentos apresentados em discussões sobre o assunto apontam crescimento de 76% na população em situação de rua no Estado entre 2021 e 2023.
A estimativa mencionada é de que Santa Catarina tenha ultrapassado 10 mil pessoas em situação de rua.
O cenário é acompanhado por iniciativas de estudo e debate, incluindo audiências públicas realizadas pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa desde 2021.
Os números estaduais, porém, fazem parte de levantamentos anteriores e não devem ser confundidos com o resultado do futuro Censo Nacional do IBGE.
O que acontece agora?
Em Florianópolis, o trabalho desta semana serve justamente para colocar a metodologia à prova.
Os pesquisadores percorrem áreas previamente mapeadas, realizam abordagens e testam os questionários e sistemas que poderão ser utilizados em 2028.
Cada dificuldade encontrada no caminho pode ajudar a ajustar os procedimentos antes da realização do levantamento nacional.
Para a Capital catarinense, a escolha como representante da região Sul coloca Florianópolis no centro de uma etapa importante de preparação do primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua.
O resultado dessa experiência ainda não é a fotografia definitiva da população em situação de rua na cidade. É, principalmente, um teste para descobrir como essa fotografia poderá ser produzida em escala nacional daqui a dois anos.
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